Vocação: “loucura” de Deus

Vocação: “loucura” de Deus

O servo de Deus Dom Hélder Câmara já dizia: “ninguém é mais louco do que Deus”. Essa frase ganha dimensões grandes ao ser posta na perspectiva vocacional, ao chamado de Deus. Por que Deus chama? Por que chama pessoas tão frágeis? Por que Deus seduz? Essas perguntas dizem muito e fazem pensar.

Os profetas se angustiaram pela missão que receberam, os apóstolos sentiram o mesmo e, com efeito, Deus insistiu e deu razões de chamar. Não seria humanamente loucura aquilo que Ele disse a Abrão: “sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei” (Gn 12, 1)? Este pedido se equivale a pedir a Abrão que ele cometa suicídio. Deixar tudo, família, terra, isso para um judeu é matar-se.

Com efeito, Deus chama e ele vai. Vocação é mesmo um gesto de “loucura”, é um apostar no frágil, no pequeno. Vocação é uma loucura que só quem ama sabe ser louco a tal ponto; Deus é amor. Ele só sabe amar. Ele ama o ser humano desde as suas entranhas, ama com amor materno. Moisés experimentou a “loucura” de Deus quando ouviu Dele mesmo: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Ex 3,6). Essas palavras são grandes demais para um ser humano.

Ele se nos manifesta pelo nome, dessa forma vem encontrar a humanidade, toda ela criatura Dele, oriundas do amor, imaginadas por Deus (Cf. Gn 1, 26). Ele demonstrou seu amor em definitivo pela humanidade quando disse: “Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa de seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo” (Ex 3,7-8). Essas palavras convenceram Moisés e ele encontrou coragem para obedecer.

O Pai sempre enxerga além das penúltimas coisas, Ele sabe trabalhar com instrumentos parcos. Só Deus mesmo para confiar tanto no homem. Só um Deus “louco” para se identificar com o homem na sua maior fraqueza, na sua maior pobreza e carência. Identificando-se com o homem faminto, nu, pobre, preso, doente (Cf. Mt 25, 40). Só um Deus “louco” é capaz de se doar em alimento, e faz isso pelas mãos de um outro ser humano que decidiu-se por Ele, optou por Ele, consagrou-se a Ele.

Jeremias ao ser vencido pela “loucura” divina exclamou confessando: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir; tu te tornaste forte demais para mim, tu me dominaste” (Jr 20, 7). Dessa forma ele entregou-se à missão que o Senhor esperava que ele realizasse. Caminhando em meio às dificuldades, mas seguiu seu itinerário como um homem apaixonado.

As escolhas de Deus contrariam a lógica humana, não são efeitos de nenhum raciocínio amadurecido. É Deus que sonha e o homem realiza, humanamente nenhuma vocação é explicável, tampouco compreensível. Ele escolhe apesar da fraqueza, jamais por causa dela. O simples fato de Ele escolher uma mãe, entre as mulheres mais pobres, em um lugarejo mais pobre, e ali iniciar sua história já revela um Deus tanto “ousado” quanto “louco”. Revela um Deus que ama sem limites, um Deus que se dá, mostra-se frágil “im-potente”, um Deus que sofre por que ama demais.

Jesus revela esse Pai que ama demais, além de qualquer medida. Ele chama seus discípulos, cada um em sua circunstância, em sua pobreza, no seu trabalho (cf. Mc 1, 16-20). O “segue-me” dito por Jesus estremeceu no ouvido daqueles homens como um trovão, num misto de incompreensão e felicidade, também de medo, mas tudo isso inferior à coragem de seguir aquele homem que dera à vida deles um sentido profundo e um rumo decisivo.

Seguiram, amaram, sofreram, voltaram, negaram, mas foram resgatados pelo amor e reaprenderam a caminhar. O vocacionado espera contra toda esperança, acredita em meio a qualquer incredulidade. A melhor resposta a essa “loucura” de Deus ao chamar é dizer: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu te amo” (JO 21, 19).

ALESSANDRO TAVARES ALVES

IV ANO DE TEOLOGIA

 

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