O deserto: do desencontro ao encontro

A beleza da liturgia quaresmal supera qualquer raciocínio. É um tempo forte de experimentar Deus, olhá-Lo nos olhos e aprender Dele. Com efeito, a peculiaridade deste período é iniciar-se com o deserto e, nele, Jesus sendo tentado. A riqueza espiritual dos encontros de Jesus revela uma amorosa pedagogia de Deus em aproximar-Se, revelar-Se e, ainda, amar suas criaturas.

O deserto, na Bíblia, é lugar de solidão, aridez, medo, enfrentamento, lugar de penumbra e incertezas. Jesus iniciou por aí, submeteu-Se a esses necessários obstáculos. Ele foi ao deserto conhecer-Se, assegurar-Se de suas capacidades e, no encontro consigo mesmo, foi tentado. A fé faz com que tenhamos a percepção de que as experiências vividas por Jesus correspondem com as nossas experiências hoje, por isso, Ele é modelo.

Jesus foi encontrar-se no deserto, uma vez que foi conduzido pelo Espírito (Cf.Mt 4,1). Uma das especialidades do Espírito Santo é nos colocar à prova. O deserto, desde o Antigo Testamento, é lugar de desafio e de incertezas, o povo sempre o experimentou sob muito medo. A partir de Jesus, o deserto tornar-se fundamentalmente uma necessidade, e, necessidade positiva. Lá há o risco de perder-se, mas há, com efeito, a certeza do encontro, quando enfrentado pela fé, quando, como Jesus, for conduzido pelo Espírito Santo.

O cristão é fragmentado por tantas iniciativas que contrariam a identidade da fé, a identidade pessoal e humana. É preciso olhar-se, reintegrar-se e o deserto e o espaço necessário. Sozinho, o homem escuta somente a si mesmo, conhece apenas a si mesmo, e, assim, pode rever-se à luz de Jesus e de sua Palavra. A partir de Jesus, o medo do deserto quase que configura um medo de si mesmo. Cada vez de novo o homem torna-se um desconhecido para si mesmo, e, dessa forma, pode converter-se em uma ameaça para si mesmo.

No deserto, ele se reencontra e se redescobre, reinsere-se na generosa filiação divina, assumindo sua posição no mundo. Jesus, naquele deserto, foi tentado nas três dimensões da carência humana, ponto comum a todos. Da mesma forma que Ele lidou com aquelas tentações, assim também hoje deve – se lidar com elas. E o que impressiona é que as respostas de Jesus são ainda respostas para as tentações de hoje.

A fé nos ensina que Jesus é o grande sacramento do encontro, assim toda avaliação pessoal deve ser feita a partir Dele. Nele todos os desencontros se dissolvem e um novo ser, gestado pela sinceridade da fé surge. O deserto vale a pena, não pelo sofrimento que lhe é inerente, mas pela alegria que é seu efeito.

Diácono Alessandro Tavares Alves

Diocese de Leopoldina

 

 

 

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