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Dia Mundial das Comunicações: compromisso com a busca da verdade

No dia 13 de maio, Festa da Ascensão, a Igreja celebra, no mundo inteiro, o Dia Mundial das Comunicações (DMC). A data foi definida por força do Decreto Conciliar Inter Mirifica, do Vaticano II, no qual se definiu que se dedicaria um dia para se refletir sobre o tema: “Para que se revigore o apostolado da Igreja em relação com os meios de comunicação social, deve celebrar-se em cada ano em todas as dioceses do mundo, a juízo do Bispo, um dia em que os fiéis sejam doutrinados a respeito das suas obrigações nesta matéria, convidados a orar por esta causa e a dar uma esmola para este fim, a qual ser destinada a sustentar e a fomentar, segundo as necessidades do orbe católico, as instituições e as iniciativas promovidas pela Igreja nesta matéria” (IM, 18).

No Brasil, a CNBB tem uma Comissão Episcopal Pastoral que se ocupa de animar a comunicação na Igreja. Dom Devair Araújo da Fonseca, bispo auxiliar de São Paulo e dom Roque Souza, bispo auxiliar do Rio de Janeiro presididos por dom Darci José Nicioli, arcebispo de Diamantina (MG) compõem esta Comissão. A preparação e a animação de celebrações para o DMC fazem parte dos trabalhos dessa Comissão. Sob a responsabilidade do P. Antônio Xavier, da assessoria da Comissão, foi feito e disponibilizado um material para a preparação da celebração nas comunidades em todo o Brasil.

Dom Darci concedeu entrevista ao Portal da CNBB. Confira.

Chegamos a mais uma jornada dedicada à comunicação social e como a Igreja no Brasil se preparou para esse dia?

Na verdade, a animação da comunicação em sua dimensão pastoral, de estudo e de orientação aos profissionais se dá durante todo o ano. A Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação tem mais de 20 projetos em curso para realizar esse trabalho. O Dia Mundial das Comunicações (DMC) é um desses projetos e nos dedicamos com muito fervor a esse momento marcante durante todos os anos. Tudo começa quando recebemos, no final do mês de janeiro, a Mensagem que o Santo Padre nos dá para iluminar nossos trabalhos e a celebração desse dia tão especial. Em seguida, passamos a apresentar sugestões aos bispos referenciais, aos coordenadores regionais da Pastoral da Comunicação e a todas as comunidades no sentido de darem destaque às recomendações oferecidas pelo Papa.

Desse modo, o conteúdo da Mensagem do Papa torna-se a principal ferramenta de nossa preparação para o DMC como também entra em todos os outros projetos da Comissão. Eu tenho participado regularmente das reuniões do Conselho Pastoral da CNBB, falado aos meios de comunicação e, na medida do possível, atendido aos pedidos para tratar da temática com grupos e dioceses. Confesso que, todos os anos desse último quadriênio, tem sido uma grande alegria tratar das questões que o Santo Padre nos apresenta em suas mensagens. Em 2015, logo depois da composição de nossa Comissão na Assembleia dos Bispos, recebemos a Mensagem que tratava de comunicar a família; em 2016, aquela linda mensagem do encontro entre comunicação e misericórdia; e, no ano passado, tivemos o apelo para comunicarmos a esperança suscitando confiança nas pessoas; este ano, temos crescido na reflexão sobre a busca da verdade por meio de um jornalismo de paz e no combate às notícias falsas.

O DMC, no entanto, não significa somente refletir sobre um tema importante. É uma jornada de oração como nos pede o Decreto Inter Mirifica, que criou a data. Por isso, nos últimos meses, procuramos apresentar aos bispos, aos coordenadores e às comunidades sugestões de momentos celebrativos. A celebração da Eucaristia é o centro de tudo e considerando essa importância decisiva da celebração do DMC, durante a última assembleia da CNBB, em Aparecida, fizemos questão de realizar um lançamento nacional dessa festa numa celebração eucarística com a presença de todos os bispos da nossa Comissão e quase a totalidade dos bispos referenciais da Comunicação dos 18 regionais da CNBB. Foi um momento precioso e que, certamente, também pode inspirar a celebração do DMC em todo o Brasil.

A Mensagem deste ano enviada pelo Papa Francisco parece ter tido uma excelente receptividade no mundo inteiro. Quais os pontos principais desse documento?

O Papa Francisco nos ajuda muito a compreender a realidade das notícias falsas e nos aponta um caminho de busca de superação da mentira que deturpa, corrompe e suja a comunicação. Entendo, no entanto, que ainda mais importante do que a exposição de como as fakenews aparecem, é o apelo que o Papa faz pela renovação do compromisso cristão de buscar sempre a verdade.

Claro que é de grande valor a exposição do complexo tema das chamadas Fakenews. O Papa faz um retrospecto importante sobre o fenômeno que tem se inserido em campanhas eleitorais no mundo inteiro, tem criado confusão para o trabalho de instituições sérias e maculado relacionamentos com a destruição da reputação das pessoas por meio da difusão de notícias falsificadas ou sem nenhum fundamento.

Eu digo que a essência da Mensagem do Papa é bem simples: a busca da verdade, sempre e em qualquer lugar. O cristão é aquele que não abre mão da verdade, não a negocia por preço algum. Mesmo que ao dizer a verdade, o cristão precisa enfrentar o sofrimento, ele o enfrenta e, com Cristo, o supera e sai vitorioso. O Papa diz: “O antídoto mais radical ao vírus da falsidade é deixar-se purificar pela verdade. Na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceitual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. A verdade não é apenas trazer à luz coisas obscuras, «desvendar a realidade», como faz pensar o termo que a designa em grego: aletheia, de a-lethès, ‘não escondido’. A verdade tem a ver com a vida inteira”.

Há um desdobramento importante na Mensagem que valoriza o trabalho do jornalismo e sugere um comportamento das pessoas na leitura das informações. O que senhor considera importante nessa parte da Mensagem?

A busca da verdade é a principal parte da mensagem e esta parte é que dá suporte para a ilustração importante sobre o jornalismo que o Papa nos traz. E, mesmo parecendo que ele se dirige somente aos profissionais, é uma palavra que sugere um comportamento para todos nós diante de toda informação que nos é apresentada nos jornais, revistas, no rádio ou no ambiente digital dos nossos dias: é preciso saber de onde vem a informação, é preciso saber se a fonte da informação é confiável e ninguém está dispensado de conferir se tem realmente fundamento os boatos que circulam rapidamente envolvendo instituições e pessoas.

Eu creio que a palavra do Papa Francisco sobre o jornalismo de paz é uma séria advertência e um convite para que os profissionais da comunicação não continuem caindo na armadilha fácil das sensações e procurem fazer investigações que privilegiem a colocação das versões de todas as partes, proponham soluções e apontem para a conciliação nos conflitos. Numa palavra, o Papa faz um apelo para que nos comuniquemos do jeito de Jesus Cristo, nosso Senhor. Ele sempre procurou superar os conflitos com justiça e amor. E eu sempre digo, em todo canto aonde passo: nós não comunicamos a nós mesmos, mas comunicamos Jesus e seu Evangelho.

Faço ainda um destaque importante: o Papa resgata uma expressão que os profissionais da comunicação conhecem há muitas décadas que é aquela que considera o jornalista um “guardião da notícia”. Trata-se de uma doutrina que mesmo sendo controvertida, é uma clara inspiração para que esses profissionais cuidem da busca da verdade, mesmo que isso tenha um preço. O Papa valoriza o jornalista ao trazer essa expressão em sua Mensagem. E vai ainda mais longe porque, sem nenhum termo ambíguo, atribui ao trabalho do jornalista um sentido missionário. Uma tarefa que se realiza para além da técnica porque tem um sentido profundo e necessário para que a humanidade percorra o caminho da justiça e do amor como nos pede o Evangelho.