Os quatro olhares sobre o Concílio Vaticano II – Lumen Gentium

A constituição dogmática Lumen Gentium é aquela que se dedica sobre o mistério da Igreja e é um dos documentos mais significativos do Concílio. Nela se tornou evidente a chamada “virada copernicana”, que consistiu no fato de o capítulo sobre o Povo de Deus anteceder ao capítulo da hierarquia da Igreja, ressaltando, com efeito, o sacerdócio comum dos fiéis.

A estrutura do documento está disposta assim: capítulo I: O mistério da Igreja; II: o Povo de Deus; III: a hierarquia; IV: os leigos; V: vocação à santidade; VI: os religiosos; VII: a índole escatológica da Igreja e o VIII que aborda Maria como imagem da Igreja. Dessa forma está construída a Lumen Gentium.

A leitura da Sagrada Constituição permite compreender que o Concílio colocou a Igreja como ‘objeto’ de discussão. A pergunta que norteia a discussão é: “Igreja, que dizes de ti mesma?” Nesse sentido toda a constituição visa responder essa indagação em seu teor profundamente teológico. Nessa tentativa de responder, os padres conciliares utilizaram várias imagens para compreender a Igreja.

Dentre elas destacamos as seguintes: redil, lavoura, construção de Deus, casa de Deus, Jerusalém celeste, nossa mãe e ainda a Imagem da Igreja como Corpo Místico de Cristo. Os padres conciliares, com profunda sabedoria, dedicaram-se a pensar a Igreja sobre o seu significado em si mesmo e encontraram soluções pertinentes para a concepção de Igreja.

A índole trinitária da Igreja ficou cada vez evidente, como afirma a Constituição: “assim aparece a Igreja inteira como “povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”” (LG, 4). Jesus é o fundamento da Igreja. A relação da Igreja com Cristo é fundamental. Vale assinalar o que afirma a constituição: “Cristo, Mediador único, constituiu e sustenta indefectivelmente sobre a terra, como organismo visível, a sua Igreja santa, comunidade de fé, de esperança e de amor, e por meio dela comunica a todos a verdade e a graça” (LG 8).

Nesse aspecto, fica evidente que Jesus é o que fundamenta a Santa Igreja, dá sentido a ela e a faz ser. Passo decisivo foi dado, quando, na constituição se afirmou que “Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica” (LG 8). Com essa afirmação, deixou de lado o eclesiocentrismo, ou seja, aquela imagem da Igreja como sendo o centro de tudo, a sociedade perfeita, afastada do mundo cuja existência independe do mundo. Nessa afirmação, compreende que a Igreja de Jesus ultrapassa as fronteiras da Igreja Católica.

Até o Concílio a compreensão de que a Igreja de Cristo era a Igreja Católica era o que estava em vigor, mas foi superada, e daí permitiu-se o diálogo, o aproximar-se do mundo para aprender dele, a Igreja que se abre e se compreende em uma perspectiva de relação, não mais privada e fechada, mas na relação mútua, como vai dizer a Gaudium et Spes.

O fator mais significativo na constituição é a compreensão da Igreja como Povo de Deus. Essa compreensão é marcante e diz de todo o documento. Os padres sinodais, com razão, afirmaram: “Deus convocou todos aqueles que em Jesus veem, com fé, o autor da salvação e o princípio da unidade e da paz, e com eles constituiu a Igreja, a fim de que ela seja, para todos e cada um, o sacramento visível desta unidade salvadora” (LG 9).

A Lumen Gentium é ampla e rica de significado, a sua organização lógica, quando antecede o capítulo sobre a Povo de Deus ao da hierarquia diz que, todos possuímos algo em comum que é o batismo, daí que Deus dispõe, pelo Seu chamado, pessoas que estão a serviço de outras, que são os diáconos, padres e bispos.

Por essa concepção, a hierarquia da Igreja torna-se uma disposição do Espírito Santo, instituída para sempre melhor servir ao povo. Ela existe como função, ministério e não como dignidade, algo merecido pelo ser humano. A hierarquia está a serviço, para o completo bem do povo, uma vez que ela é constituída pelo Povo de Deus, chamado e consagrado ao ministério ordenado.

Dessa forma não há equívocos quanto à eclesiologia presente na Sagrada Constituição. Os padres sinodais assim consideram, sobre Maria, como imagem da Igreja: “do mesmo modo que a Mãe de Jesus, já glorificada no céu em corpo e alma, é imagem e primícia da Igreja, que há de atingir a sua perfeição no século futuro, assim também já agora na terra, enquanto não chega o dia do Senhor (cf. 2Pd 3, 10), ela brilha como sinal de esperança segura e de consolação, aos olhos do Povo de Deus peregrino” (LG, 68).

Ela é a imagem da Igreja em razão de seu filho Jesus de Nazaré que amou e se entregou pela sua Igreja.

ALESSANDRO TAVARES ALVES

III ANO DE TEOLOGIA

 

REFERÊNCIA

VATICANO II. Constituição Dogmática do Concílio Ecumênico Vaticano II Lumen Gentium. 23. Ed. São Paulo: Paulinas, 2011.

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