Laudato Si e o Evangelho da criação: o olhar do Papa Francisco

O papa Francisco publicou sua encíclica sobre o cuidado da casa comum, abordando a tão importante temática da ecologia. O pontífice aborda esse assunto de maneira integral, conjugando todos os fatores e relacionando-os com a existência inteira do homem, nos seus aspectos mais profundos e verdadeiros.

Ao referir-se ao tema da ecologia, o Santo Padre quer chamar a atenção dos seres humanos para si mesmos, olhar a natureza não como um mero produto do acaso, mas como criação de Deus para o bem do homem, por amor ao homem. Esse fator supera demagogias e faz com que a palavra do pontífice seja sempre de novo atual e urgentemente necessária.

A Igreja tem muito a dizer ao mundo e Francisco, consciente disso, colabora eficazmente para o bem comum. A Laudato Si é uma encíclica que compõe o grande acervo da Doutrina Social da Igreja e nesse sentido, diz respeito a todos os homens indistintamente. Há a corrente preocupação com os pobres, haja vista que são os mais afetados por qualquer problema com a natureza, devido à vulnerabilidade da sua condição de vida.

Francisco chama a atenção para o cuidado com a casa comum, uma vez que destruindo o meio ambiente, o homem está destruindo a si mesmo de maneira rápida e irracional. É necessária a conversão ecológica, que é a conversão da pessoa inteira para a sensibilidade com o meio em que vivemos e necessitamos para o estabelecimento da pessoa inteira.

O Romano Pontífice acredita que a fé e a Igreja podem colaborar muito nessa questão. O olhar transcendental religioso pode iluminar e oferecer respostas consistentes que se efetivam em prol do bem comum. Segundo o papa “se, pelo simples fato de serem humanas, as pessoas se sentem movidas a cuidar do ambiente de que fazem parte, os cristãos em particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé” (LS 64).

Ao insistir na necessidade de se olhar a natureza como obra da criação, não sendo como um mero produto do caos e do acaso, o papa entende que cada ser existente é também obra divina. Existe uma centelha divina em cada um, por isso, toda a criação é carente de cuidado. Apenas compreendendo a natureza como obra criada, é que o homem encontra sentido verdadeiro para seu existir.

Nesse sentido, colabora Francisco “como é maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido” (LS 65).  Com efeito, é preciso entender dinamicidade da criação. A possibilidade de não existir, mas ao mesmo tempo existindo, faz crescer a consciência para o gesto bondoso de Deus.

A criação é uma decisão de Deus, assim diz o Romano pontífice “há uma opção livre, expressa na palavra criadora. O universo não apareceu como resultado de uma onipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de autoafirmação. A criação pertence à ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação. […] então cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efêmera do ser mais insignificante é objeto do seu amor e, naqueles poucos segundos de existência, Ele envolve-o com seu carinho” (LS 77).

É importante a forma com a qual o Papa se expressa, pois na verdade de sua interpretação, ele expõe a compreensão da Igreja e assim, suas proposições se justificam com consistência total. Sejam eles no campo econômico, social ou político. É preciso, evidentemente, uma compreensão nova do existir, da vida, da ética, do mundo.

O universo é um mistério, cada vez mais se encontra degradado pelas forças cegas do homem, por motivos de índole egoísta, lucrativa e não respaldada na ética. Essas forças tão intensamente cegam o homem, que ele não compreende que está destruindo a si próprio, tirando de si mesmo a possibilidade de vida e, sobretudo, das gerações futuras.

A Igreja, como mão prudente, não pode ficar alheia a essa situação, o Evangelho a capacita de oferecer uma palavra de alerta e também de conforto. Francisco assim diz “hoje, a Igreja não diz, de forma simplista, que as outras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade; mas ensina – como fizeram os bispos da Alemanha – que, nas outras criaturas, se poderia falar da prioridade do ser sobre o ser úteis” (LS 69).

O ser humano, com sua criatividade, raciocínio, inteligência, deve sempre colocá-las a dispor do Criador e orientar todas as coisas a Ele. Exercer sua vocação de sujeito e nunca reduzir-se a objeto. A fragilidade do mundo, da natureza conta com o uso dos atributos divinos que Deus oferece a cada ser humano. Deus confia no homem, quer continuar confiando, pois todo ser humano é vocacionado ao amor.

O Papa, com efeito, insiste sempre de novo na necessidade da fé, pois “a fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para a evolução positiva, como pode também acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à apaixonante e dramática história humana, capaz de transformar-se num desabrochamento de libertação, engrandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrário, num percurso de declínio e mútua destruição. Por isso a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e sobretudo proteger o homem da destruição  de si mesmo” ( LS 79).

Essas palavras do Papa Francisco encorajam a cada um que as contempla, a cuidar de verdade, da natureza, pois cuidando dela, o homem cuida de si próprio, pensa em si e no bem de todos e torna cada vez mais possível a convivência e o desenvolvimento integral de todo homem e do homem todo.

ALESSANDRO TAVARES ALVES

III ANO DE TEOLOGIA

 

REFERENCIA

FRANCISCO, PAPA. Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

 

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